Atividade lenta limita projeção de lucro e de alta da Bolsa

O ritmo mais lento de retomada da economia, que deve comprometer o crescimento de lucro das empresas, coloca em xeque as previsões de fortes ganhos para a bolsa de valores traçadas no início do ano e já provoca um movimento de ajuste de expectativas.

         O impacto para o Ibovespa, por ora, é limitado, uma vez que o índice antecipou em boa medida a piora do ambiente não só local como externo. Depois de subir mais de 10% no início do ano, o índice acumula perda de 2%, aos 74.862 pontos.

         Entre as grandes casas de análise, Itaú, XP Investimentos e UBS cortaram as projeções de lucro para as empresas e, consequentemente, para o Ibovespa. O Citi e o BTG colocaram em revisão suas estimativas para o índice, e o Santander não descarta a hipótese de ajustar para baixo suas previsões.

         As revisões de cenários feitas pelos analistas ainda apontam para um crescimento de lucro das companhias, mas em menor intensidade do que o visto no começo deste ano.

         Isto explica a visão consensual de que o Ibovespa deve ter alguma valorização em 2018. "A bolsa teve uma baixa muito brusca e agora está voltando para a realidade", afirma Lucas Tambellini, estrategista de ações da Itaú Corretora. De todo modo, essa correção não deve levar os preços para os níveis vislumbrados há alguns meses.

         A Itaú Corretora reduziu a estimativa para o Ibovespa neste ano, de 86 mil pontos para 83,7 mil pontos. O ajuste foi feito depois do corte da perspectiva de crescimento para os lucros das empresas para 58% no ano. A estimativa anterior, de maio, era de 68%.

         "Não tenho dúvida de que haverá crescimento de lucros neste ano, mas a piora do cenário macroeconômico interferiu muito na percepção de ganhos das companhias", afirma. "Hoje, se tivesse que fazer uma aposta sobre para onde vão as revisões, é para baixo."

         Tambellini lembra que, no começo do ano, a perspectiva de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) era de 3%, contra 1,5% agora. No exterior, o crescimento das economias desenvolvidas diminuiu a disposição dos investidores em buscar ativos de risco, o que afeta os mercados emergentes.

         "Parece bem evidente que teremos revisões de lucros para baixo", diz Carlos Sequeira, analista do BTG. O banco ainda trabalha com projeção de crescimento de lucro de pouco mais de 20% no ano, mas colocou o dado em revisão.

         "A base de comparação de 2017 é muito fraca, então é claro que haverá lucros. Mas, como estamos falando de uma desaceleração da atividade, não olhamos para os ganhos hoje como há três ou seis meses."

         Sequeira evita fazer projeções para o Ibovespa, mas, para ele, ainda é possível esperar ganhos adicionais, uma vez que a bolsa já passou por ajuste nos últimos meses.

         Uma maneira de traçar as perspectivas para o Ibovespa é olhando para a relação entre preço e lucro (P/L). Segundo Sequeira, o múltiplo P/L está em 10,9 vezes, abaixo da média histórica, de 13 vezes. Para que a bolsa retorne a esse nível histórico, seria preciso que o lucro projetado em 12 meses ficasse 15% abaixo do que hoje é estimado pelo banco, o que parece um corte excessivo.

         "É possível ocorrer uma revisão adicional no Ibovespa porque o ajuste de lucros já realizado parece pequeno, mas um corte de 15% não é tão provável."

         Quem também vê chances de revisões adicionais nos lucros é Daniel Gewehr, estrategista do Santander. O cenário do banco contempla um crescimento do resultado das empresas do Ibovespa de 27%. No entanto, dos 17 setores acompanhados pela instituição, 11 ainda devem sofrer cortes nas projeções.

         "Esse risco deve ser monitorado e a magnitude ainda é difícil de medir, mas não deve ser uma revisão grande", afirma. "Esperamos que a massa de lucros seja cortada em algo ao redor de um dígito baixo [de um a três pontos percentuais]."

         Mesmo com um eventual corte nas projeções para o lucro das empresas, o estrategista do Santander faz coro com o grupo que acredita que o Ibovespa tem espaço para alguma recuperação em relação ao nível atual. Ele também pondera que os lucros consolidados das empresas do Ibovespa podem não sofrer uma queda tão dramática porque setores de grande relevância ainda têm perspectivas positivas à frente.

          É o caso de siderurgia e mineração, com a alta dos preços das matérias-primas e do dólar. É bom observar que a Vale é a ação com maior peso no Ibovespa.

         O Citi mantém uma leitura mais positiva para o mercado. Segundo o estrategista do banco no Brasil, Fernando Siqueira, as companhias devem ter uma expansão de 30% nos resultados em 2018, um número que ele ainda não pretende revisar. Para 2019, a estimativa é mais modesta: 13%, considerando que a base de comparação dos ganhos neste ano será mais elevada.

         A situação bastante turva em que se encontra o país, no entanto, levou a casa a colocar a projeção para o Ibovespa no fim do ano em revisão. A última projeção feita pelo Citi para o Ibovespa -- e que já perdeu validade -- era de 95 mil pontos. "O cenário eleitoral difícil, a alta de juros em economias desenvolvidas e o debate sobre a guerra comercial entre Estados Unidos e China forçaram os investidores ao conservadorismo", diz.

         "Mas, com o juro básico ainda baixo e uma base de comparação tão fraca como foi 2017, um pequeno ganho de receita das empresas pode virar um lucro mais robusto."

         Na XP Investimentos, a dificuldade de prever um horizonte para o Ibovespa está diretamente ligada à indefinição do cenário político, diz Karel Luketic, analista-chefe da corretora. Independentemente do desfecho das eleições, porém, a deterioração nas projeções de crescimento econômico cria um ambiente desfavorável às empresas.

         "A mudança de cenário justifica revisão das estimativas de lucros e, se somada ao aumento da incerteza eleitoral, pode motivar uma contração do P/L justo que os investidores estão dispostos a pagar pelas ações domésticas", afirma Frederico Sampaio, diretor de renda variável da Franklin Templeton. "No entanto, a correção de preços no período parece exagerada. O múltiplo atual parece bem descontado, mesmo antecipando revisões de lucros para baixo."

         Em relatório, o UBS destaca que a perspectiva de alta de juros, a piora nas dinâmicas macroeconômicas e o enfraquecimento do real implicam um período de menor expansão nos lucros e maior custo de capital. "Assim, permanecemos cautelosos com o mercado acionário." (do Valor Econômico)

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