Em ascensão, pentecostais impulsionam voto em Bolsonaro

O candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) ficou a quatro pontos percentuais da vitória no primeiro turno, no domingo, mas, se dependesse apenas da votação nos 25% de municípios com maior taxa de evangélicos pentecostais, o parlamentar já estaria eleito para trocar a Câmara dos Deputados pelo Palácio do Planalto.

         Bolsonaro teve 52,12% dos votos contra 24,97% de Fernando Haddad (PT) no grupo de cidades que registram entre quase 15% até os 52,1% da pequena Guaraíta (GO), a mais neopentecostal do país, segundo o último Censo do IBGE, de 2010.

         O levantamento do Valor Econômico dividiu os municípios brasileiros em quatro grupos de tamanhos iguais, de acordo com a proporção de fiéis ligados a essas denominações religiosas. Conforme o eleitorado é mais pentecostal, Bolsonaro aumenta a sua vantagem sobre Haddad.

         Com 17 pontos percentuais (46% a 29%) atrás da votação do deputado no domingo, o ex-prefeito de São Paulo inverte de posição e ganha de Bolsonaro por uma diferença de 19 pontos (48% a 29%) nos municípios com menor taxa de população evangélica pentecostal (até quase 6%).

         As igrejas pentecostais são as mais politicamente atuantes, como a Universal do Reino de Deus (Iurd) e a Assembleia de Deus; e seus principais líderes declararam apoio ao candidato do PSL.

         Nas faixas intermediárias, a votação dos presidenciáveis foi menos predominante. No segundo grupo de 25% de municípios menos neopentecostais, o petista ficou à frente, mas praticamente numa situação de empate (38,98% a 38,16%).

         Os eleitores do estrato seguinte -- com cidades que têm entre quase 10% até pouco menos de 15% de evangélicos -- são os que mais se aproximaram do resultado geral do eleitorado brasileiro, com vitória de Bolsonaro por 49,06% a 23,3%.

         Para o estudioso do segmento evangélico Ricardo Mariano, professor do departamento de sociologia da Universidade de São Paulo (USP), os dados sugerem que o candidato do PSL se aproveita e ao mesmo tempo é incentivador de um novo fenômeno no país: a ascensão de uma direita cristã inspirada no modelo dos Estados Unidos, onde evangélicos se posicionam publicamente como ultraconservadores num movimento que se espraia pelos setores seculares da sociedade.

         Mariano encontra aí a explicação para a aparente contradição entre a doutrina cristã e a pregação por Bolsonaro de um discurso beligerante em que defende a tortura e o combate da violência com mais violência.

         Durante a campanha, o deputado causou polêmica ao ensinar uma criança a fazer o sinal de uma arma com os dedos da mão. O gesto foi imitado em fotos de eleitores evangélicos de Bolsonaro postadas em redes sociais. "Essa é a mesma agenda da direita cristã norte-americana, seguida pelos evangélicos de lá, dos quais três quartos são ligados ao Partido Republicano", afirma Mariano.

         O pesquisador, autor do livro "Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil", lembra que, embora católico, Bolsonaro, em seu sétimo mandato como deputado federal, se aproximou da bancada evangélica nas últimas duas legislaturas.

         Além disso, sua mulher, Michelle, e seu filho Eduardo Bolsonaro (PSL), reeleito com 1,8 milhão de votos, recorde à Câmara, pertencem a denominações evangélicas. No Parlamento, o capitão reformado do Exército fez a síntese de uma pauta conservadora nos costumes, o antipetismo e o discurso anticorrupção trazido pela Operação Lava-Jato.

         Nos Estados Unidos, aponta Mariano, a direita cristã também empunha a bandeira pró-arma, a agenda punitivista em matéria de direito penal -- como a redução da maioridade --, ataca direitos de minorias e acrescenta elementos próprios como a implementação do criacionismo no currículo escolar e o apoio ao sionismo.

         No Brasil, diz, Bolsonaro propagou a defesa da ditadura militar, com apologia à tortura, e seu esforço em minar a legislação de direitos humanos ganhou apoio entre aliados evangélicos. "O deputado e pastor Marco Feliciano (Podemos-SP) chegou a dizer que não existiu a ditadura. É um revisionismo, ou mesmo negacionismo, que encontrou adesão dentro e fora do meio evangélico", afirma.

         O pesquisador cita o apoio do Movimento Brasil Livre (MBL) -- um dos líderes do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff -- ao movimento Escola Sem Partido, respaldado com entusiasmo pelo setor evangélico, especialmente o pentecostal.

         Mariano tem preferido não distinguir o segmento, já que nos últimos anos se diluíram as diferenças entre a maioria das igrejas pentecostais -- sendo a maior delas a Assembleia de Deus -- e as neopentecostais, como a Universal do Reino de Deus.

         Líder da Iurd, tio do prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), e dono da TV Record, o bispo Edir Macedo declarou apoio a Bolsonaro, assim como o pastor José Wellington Bezerra da Costa, presidente da maior vertente da Assembleia de Deus. "Ele era malufista, depois apoiou os tucanos e agora é Bolsonaro", diz.

         Do mesmo modo que a Universal controla o PRB, a Assembleia de Deus também pretende ter o seu partido e já pediu o registro do Partido Republicano Cristão (PRC) à Justiça eleitoral, lembra Mariano.

         Com um rebanho que cresce vertiginosamente -- os evangélicos representavam 6,6% pelo Censo de 1980, chegaram a 22,2% em 2010 e agora seriam 30%, de acordo com os institutos de pesquisa -- sua importância política também é ascendente.

         Para o professor da USP, a despeito da geleia partidária do presidencialismo de coalizão, "começa a haver claramente um alinhamento político, ideológico, partidário e eleitoral à direita" e os pentecostais passam a assumir essa identidade, "até reacionária".

         Mariano prevê -- com preocupação -- a maior intersecção dos evangélicos com a bancada da bala. "Ele bate de frente com a laicidade. Já disse que quer instituir um Estado cristão e que as minorias devem se curvar à maioria. Isso é uma teocracia. É uma fala preocupante", diz. (do Valor Econômico)

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