IPO da BB Seguridade afetou a rentabilidade do banco

Quando o Banco do Brasil abriu o capital da BB Seguridade, havia a crença no mercado de que a operação ajudaria a destravar um valor que estava oculto na instituição financeira.

    A tese vigente entre executivos da casa e banqueiros de investimento era que a soma das partes era maior que o todo. A operação, realizada em 2013, é até hoje citada como um dos IPOs de maior sucesso da bolsa brasileira.

    A oferta de ações movimentou R$ 11,5 bilhões e foi decisiva para atenuar os problemas de capital que o BB enfrentaria nos anos seguintes. No entanto, penalizou a rentabilidade do banco.

    Levantamento feito pelo Valor Econômico indica que o retorno sobre o patrimônio líquido (ROAE, na sigla em inglês) do BB nos nove primeiros meses de 2018 teria sido de 14,6%, e não de 13,4%, se fosse contabilizada dentro de casa a totalidade do resultado da BB Seguridade. Esta companhia reúne os ativos da área de seguros, capitalização e previdência do banco, explorados em parceria com sócios privados. O retorno da empresa foi de 39,4%.

    Esta é uma questão com a qual a nova diretoria do banco, encabeçada por Rubem Novaes, irá se deparar ao discutir quais ativos podem ser vendidos ou levados a mercado.

    O executivo já disse que não vai se desfazer das "joias da coroa" -- como meios de pagamento, crédito a famílias e pequenas empresas e administração de fundos --, mas indicou que pode fazer parcerias. Uma das possibilidades na mesa é a abertura do capital da gestora de recursos BB DTVM.

    No caso da BB Seguridade, o dinheiro embolsado com a venda de ações ajudou o Banco do Brasil a melhorar seus índices de capital, prejudicados pela política de juros artificialmente baixos praticada nos governos Lula e Dilma.

    Capital não é um problema para o BB hoje, mas o balanço da instituição ainda tem R$ 8,1 bilhões em instrumentos híbridos. Caso esses recursos tenham de ser devolvidos ao Tesouro, vender ativos será necessário para preencher esse espaço.

    Fazer IPO ou atrair sócios privados pode ajudar a melhorar o resultado de determinadas áreas de negócios e vai em linha com a proposta do governo de reduzir o tamanho do Estado, diz Eduardo Cintra, analista da Pacífico Gestão de Recursos. "Mas pode botar para fora do banco uma fonte importante de retorno", pondera.

    Realizada no governo Dilma, a venda de parte da BB Seguridade foi lamentada, em mais de uma ocasião, por Paulo Caffarelli, que presidiu o banco de maio de 2016 até o fim do ano passado. "A gente sente falta da receita recorrente da BB Seguridade. O Bradesco, por exemplo, tem 100% da sua operação de seguridade", disse o executivo à imprensa numa das vezes.

    Na gestão de Caffarelli, o foco voltou-se para a venda de ativos não estratégicos -- que acabou não acontecendo -- e para mudança nos modelos de crédito.

    Com o objetivo de melhorar a rentabilidade do banco, as medidas tiveram como ponto central elevar as taxas cobradas nas operações de crédito para patamares compatíveis com a média do mercado.

    Embora tenha melhorado nos últimos dois anos, o BB ainda trabalha com retorno muito aquém da faixa de 19% a 22%, ostentada por Bradesco, Santander e Itaú. Em seu discurso de posse, Novaes disse que o objetivo é "superar" a rentabilidade exibida pelos pares privados.

    Com um modelo verticalizado no país, os grandes bancos concentram dentro de casa suas operações de seguros, cartões e gestão de recursos. Essas atividades, em geral, são mais rentáveis que o crédito, além de atenuarem o impacto de freadas bruscas na economia.

    O Itaú, por exemplo, reportou que as operações de crédito geraram retorno de 15% de janeiro a setembro do ano passado, enquanto a rentabilidade dos negócios de seguridade e serviços foi de 37%.

    "O BB hoje é o banco mais dependente de resultado de crédito", afirma Carlos Daltozo, chefe de análise de renda variável da Eleven Financial Research.

    Para um ex-executivo do BB, a oferta da BB Seguridade cumpriu seu papel ao mostrar que havia valor oculto dentro do banco, cujas ações eram negociadas -- e ainda são -- com desconto em relação às dos pares privados.

    A premissa, segundo essa fonte, era que a abertura de capital daria à BB Seguridade maior flexibilidade e que o crescimento decorrente mais que compensaria a renúncia de receitas do banco. Porém, isso ainda não aconteceu. Embora tenha resultados crescentes, a companhia ainda não gera para o controlador um retorno superior ao que ele teria se fosse o único dono.

    Isso não quer dizer que tenha sido mau negócio. "O crescimento acelerado da BB Seguridade nos primeiros anos muito provavelmente não teria acontecido se ela fosse departamento do BB", diz Daltozo.

    A participação de mercado da BB Seguridade, que era de 23,8% em 2013, chegou a 28,6% em 2016, recuando para 22,3% no último terceiro trimestre.

    Para o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, que escreveu no fim do ano passado sobre a venda de ativos do BB, esse é um tema que deve ser visto com muita cautela. "Não é tão simples [vender partes do banco]. Não se trata de defender o BB, mas é preciso ter lógica." 

    Procurado pelo Valor, o BB não se manifestou até o fechamento desta edição. (do Valor Econômico)

 
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