'Brasil já viveu neste ano a sua maxidesvalorização'

O Brasil viveu praticamente uma maxidesvalorização cambial neste ano, mas esse movimento -- observado também em outras economias emergentes, como Argentina e Turquia -- não se encaixa no conceito de ataque especulativo, segundo Emmanuel Hermann, ex-sócio do BTG Pactual, que há quatro anos fundou a Leste.

         "O fluxo de capital vem entrando e saindo do Brasil de maneira coerente. Dentro de 'ranges' normais, se [o dólar] for de R$ 3,20 para R$ 4,20 não tem exageros aí, o que está refletido no mercado é uma reação à capacidade de gestão da política brasileira", afirma.

         Antes de testar novos patamares -- alguns departamentos econômicos e gestores de recursos já preveem a moeda a R$ 5,00 --, o executivo acha que os agentes vão esperar o novo governo a ser eleito em outubro dar suas cartas e sinalizar se vai tomar a direção das reformas fiscais.

         Com um déficit em conta corrente confortável e reservas robustas, da ordem de US$ 380 bilhões, Hermann lembra que a dinâmica do setor externo, hoje, é completamente diferente da vista nas crises passadas.

         Mas foi para fugir de vaivéns colados ao quadro político como o atual, num mercado mais limitado, que Hermann deixou o BTG depois de mais de duas décadas. O intuito era dar ao investidor brasileiro uma alternativa de diversificação internacional para além dos 20% de exposição presente na maioria dos multimercados locais.

         Foi, dessa forma, um dos que puxaram a oferta de fundos essencialmente globais no país, classe que ficou na moda a partir da delação premiada do empresário Joesley Batista, do grupo JBS, no ano passado. O episódio trouxe perdas expressivas aos ativos brasileiros e teve direito a um "déjà vu" recente e mais duradouro com a greve dos caminhoneiros e uma maior aversão aos emergentes a poucos meses das eleições.

         "Embora o Brasil tenha vivido um período recente positivo para o mercado de capitais, o tamanho é ainda pequeno e não comporta estratégias em investimentos alternativos e com menor exposição direcional", diz Hermann.

         Numa democracia ainda em processo de amadurecimento, ele vê os ciclos eleitorais afetando os preços e o ritmo da economia. Foi assim com o governo de Michel Temer, que num primeiro momento foi recebido de braços abertos pelo mercado ao perseguir reformas estruturais, mas viu seu governo ruir a partir do vazamento da conversa com Joesley Batista.

         "A energia passou a ser gasta para se manter no governo. Faz um ano que esse ciclo foi interrompido e, ao longo do tempo, isso impactou as expectativas eleitorais."

         Agora, em pleno movimento de correção de juros nos EUA e de acirramento da guerra comercial do governo Donald Trump, mesmo lá fora as apostas direcionais tendem a proporcionar retornos mais magros do que nos últimos anos, diz. Buscar posições que ganhem com volatilidade e valer-se de estratégias sistemáticas são o caminho para navegar por águas mais turvas.

         Dividido numa rotina entre Miami e São Paulo, o executivo conta que a Leste acaba de montar um escritório em Nova York, justamente para lidar com os novos tempos. Contratou um gestor de portfólio sênior e passou a buscar o reforço de profissionais especializados em estratégias quantitativas. A ideia é trabalhar com o "big data", desenvolver uma modelagem para cavar oportunidades levando em conta um emaranhado de informações à mão.

         Com um patrimônio de cerca de R$ 1,6 bilhão, com parcela expressiva de capital proprietário, localmente a Leste tem presença no Rio e em São Paulo, e, fora do Brasil, já contava com um escritório em Miami e um braço em Londres. Lá, dois profissionais filtram ações, principalmente entre empresas europeias. Esse time representa boa parte do risco do multiestratégia e trabalha com Hermann desde os tempos de BTG Pactual.

         O executivo entrou no então Pactual em 1992, quando o banco tinha 40 funcionários. Assim, ele vivenciou todas as mudanças de nome e estrutura -- UBS Pactual até virar o atual BTG Pactual, a partir da recompra da parcela da operação antes vendida para o suíço UBS.

         Quando deixou a instituição, em 2014, Hermann foi dispensado de cumprir a cláusula de não competição, em troca da compra de units do banco. Chegou a ser o maior acionista individual, considerando-se o capital em circulação. Mais de um ano depois, ele acabou exposto ao tombo dos papéis, como consequência da prisão do então presidente André Esteves, acusado de obstrução nas investigações da Lava-Jato, e depois inocentado.

         Com sua mudança para Miami, foi feita uma redução de capital no fundo Fúria, que agrega seus investimentos pessoais, e a fatia atual é da ordem de 1,5%. O executivo diz que carrega uma participação ainda relevante porque acredita que o BTG apresenta boas perspectivas de crescimento e lucratividade.

         Hermann conta que sua saída veio num momento em que já estava mais assustado com o Brasil, enquanto o banco mantinha o foco local. Fora das restrições de capital comuns a um conglomerado financeiro, ele também diz que na gestão independente tem mais flexibilidade de atuação.

         Na Leste, as estratégias estão divididas em duas classes. Numa delas estão os fundos ilíquidos, que incluem créditos estruturados, desenvolvimento imobiliário nos EUA e disputas jurídicas ("litigation finance"). Na outra estão os portfólios líquidos: de um lado o multiestratégia, que combina avaliação macro global com um pedaço pequeno em Brasil, com ações, dívida e uma parcela do risco do fundo Leste Event Driven, que, por sua vez, busca geração de valor após movimentos de fusões e aquisições de empresas no exterior, até a aprovação regulatória dos negócios.

         Como o foco está em ativos fora do Brasil, o executivo diz não ter restrição de tamanho e hoje tem capacidade para gerir até US$ 2 bilhões.

         No bloco dos emergentes, o executivo vislumbra um ambiente de preços de commodities mais estáveis, após o ciclo de baixa que se viu três anos atrás, mas lembra que a necessidade de ajustes fiscais e ganhos de eficiência ainda está na ordem do dia.

         O Brasil poderia se valer da menor pressão sobre as matérias-primas para atrair capital estrangeiro e a área de exploração de petróleo é uma das que podem ajudar o país a sair da crise, com um potencial de investimento na casa dos US$ 50 bilhões.

         No mercado internacional, o impacto da guerra comercial liderada por Trump, que até aqui tinha sido pequeno em termos agregados, ameaça bater na confiança dos agentes e no consumo. O caldeirão de incertezas pode afetar o lucro das empresas americanas, com um ciclo um pouco menos favorável para negócios e menor geração de valor para as companhias de maneira mais ampla.

         A decisão do Fed de elevar as taxas de juros de curto prazo para o intervalo entre 1,75% e 2% ao ano no mês passado, embora em linha com as expectativas, também está longe de ser trivial para os ativos financeiros globais, cita Hermann.

         Para ele, a correção da rota monetária nos EUA tem mudado a percepção dos investidores e é de se esperar que o processo ainda tenha impacto mais relevante nos preços ao aumentar o custo de oportunidade para a alocação de recursos e piorar a eficiência de risco e retorno das carteiras.

         Numa economia em que a inflação deixará de ser represada, como resposta vem um aumento mais intenso de juros pelo Fed, que deve prosseguir pelos próximos 12 meses. Esse movimento, que até aqui pouco mexeu com as taxas de longo prazo, tende a ser corrigido neste ano.

         A tecnologia, afirma Hermann, tem se mostrado um motor de geração de valor na economia global e essa foi uma das razões para que o ajuste monetário do Fed tenha sido absorvido de maneira suave pelos mercados até aqui.

         "Houve uma surpresa no mercado em relação à dimensão da questão tecnológica no ano passado, algo que foi muito potente para suportar os ganhos de produtividade das companhias e que, de certa forma, se contrapõe ao medo de subida da inflação que ocorreria num ambiente de redução de estímulos monetários", diz. (do Valor Econômico)

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