Multimercados lideraram as captações num 2018 difícil

Os multimercados lideraram a captação do setor de fundos em 2018 e atraíram R$ 42,9 bilhões. Mas não foi exatamente um ano fácil para os gestores.

         A greve dos caminhoneiros, a interrupção de corte de juros pelo Banco Central antes do previsto e um processo eleitoral arrastado desafiaram os profissionais a mudanças rápidas.

         No exterior, o mau humor com emergentes, e depois a onda de vendas no mercado acionário americano provocaram tropeços. Na média, os fundos conseguiram bater o CDI. Alguns superaram a régua com folga, com retornos na casa de dois dígitos. O referencial fechou o ano com magros 6,42%.

         Entre os multimercados macro, destaque para as carteiras da Kapitalo, com ganhos de 17,86% (Zeta) e 12,08% (Kappa), o Hedge Plus, do Itaú (15,75%), o Kinea Atlas (15,17%), o Absolute Vertex (12,8%), o Ventor Hedge (11,7%), o AZ Quest Multi Max (11,4%) ou o Saga Top (10,7%), para citar apenas alguns exemplos. No conjunto dos multimercados livre, aparecem o L3 Vista (37,9%), o Polo Norte (21,7%), além dos quantitativos Murano (18,2%) e Kadima (16,12%).

         O filtro, feito na base da Morningstar, considerou portfólios mistos com mais de R$ 100 milhões e pelo menos 50 cotistas, excluindo-se carteiras que arbitram ações. Vale lembrar que uma janela de 12 meses é insuficiente para que se avaliem fundos de maior volatilidade e que o investidor possa ver a consistência de resultados no longo prazo.

         No ano passado, a bolsa foi um dos destaques dos multimercados da Kapitalo. Com a percepção de que o Brasil rodaria com juro real de equilíbrio mais baixo, num ambiente de empresas menos alavancadas e com a atividade finalmente voltando a gerar empregos, o mercado de ações foi uma das escolhas da casa para atravessar o período de pré-estreia do novo governo.

         A gestão também acertou na leitura do processo inflacionário no Brasil e que o BC respeitaria seus modelos na condução monetária. Pode, assim, colher resultados em apostas direcionais em juros, nas diferenças entre as projeções dos contratos futuros e nas estratégias ligadas à inflação. "Nunca foram posições longas ou grandes. Eram mais focadas no que a gente conseguia enxergar", diz o sócio-fundador Carlos Woelz.

         Na Itaú Asset Management, a gestão macro mudou muito a carteira ao longo do ano. Ganhou com posições em juros e câmbio na primeira metade do ano e depois capturou retornos com operações em bolsa, descreve Marcello Siniscalchi, diretor da instituição.

         "Mais importante que o cavalo, o ativo escolhido, o que pesou foi ler bem o cenário, primeiro positivo e depois a reversão", diz.

         Ele cita que, com a alta de juros nos EUA, os investidores passaram a vender ativos de risco e ir para o money market, o equivalente aos fundos DI brasileiros. "Houve uma fase do ciclo que nossos pares, Argentina e Turquia, sofreram e o Brasil foi tratado como se estivesse fora do mundo."

         Como a alocação de risco ainda é elevada e há pela frente novos ajustes nas taxas internacionais, Siniscalchi vê desafios para os emergentes. "Vai ser mais difícil do que era num ambiente de juros baixos [globais] para quem não fez o dever de casa. O Brasil vai depender das reformas para se destacar nesse cenário mais adverso."

         A gestão do fundo Verde, de Luis Stuhlberger, aproveitou a recente volatilidade global para aumentar a exposição ao mercado acionário americano. Num dezembro que foi brutal para os ativos de risco mundo afora -- o S&P 500 recuou 9,2% --, a carteira perdeu 0,13%, fechando 2018 com ganhos de 7,91%.

         A visão da gestora é que o crescimento vinha se desacelerando, e isso se aprofundou num momento em que o custo do dinheiro em dólar subiu. "A combinação desses dois fatores nos últimos meses levou o mercado a extrapolar que uma recessão global está à espreita", comenta. Para a gestão do Verde, algumas preocupações com crescimento (especialmente na China) são legítimas.

         A equipe de Stuhlberger diz haver incertezas políticas suficientes para justificarem um maior prêmio de risco. "Ainda assim, nos parece que os preços de ações (especialmente nos EUA) estão baratos, e aumentar exposição após correções como a que vimos no último trimestre do ano, historicamente, tem excelente relação de retorno para o risco."

         Embora o Brasil tenha ingredientes macro para se sobressair, se não aprovar as reformas vai sofrer as consequências da cena internacional menos amigável, diz Erick Carvalho, gestor da Ventor Investimentos.

         Para o especialista, o mercado já colocou nos preços uma probabilidade alta de a situação fiscal ser equacionada e se a revisão da Previdência não vingar, será bem nocivo para os ativos locais.

         Sem tentar adivinhar qual será o desfecho, a gestão mantém um pé atrás. "A gente não abre o ano de peito aberto", diz Carvalho. "As posições são um pouco menores, mais cautelosas, buscando mais hedge do que usualmente faria, com apostas relativas entre classes de ativos para minimizar o risco de perda." Para o gestor, o mercado que parece ter mais assimetria é a bolsa, embora não a considere barata.

         As grandes oportunidades de valor no mercado acionário hoje estão nas companhias de consumo que ficaram para trás em relação ao Ibovespa, diz Claudio Andrade, sócio-fundador da Polo Capital.

         Conforme cita o gestor, como um terço do índice é de empresas ligadas à cadeia de commodities -- e, portanto dependentes da atividade na China --, as ações que compõem o referencial não devem subir em bloco. Outro setor de peso relevante, formado pelos bancos, pode sofrer com spreads menores e juros mais baixos.

         No segmento de juros, o especialista diz que os preços estão ancorados a uma expectativa para juros que considera a evolução do quadro fiscal. "A Previdência não é a bala de prata, mas é o grande símbolo. Se, por acaso, não acontecer, vamos ver o aumento dos prêmios de risco mais à frente."

         As oportunidades no mercado de juros são agora menos óbvias, segundo o sócio-gestor Marco Aurélio Freire, da Kinea. Os fundos começaram o ano com posições menores em NTN-B e se valem de contratos de juros curtos para proteger a carteira.

         Na estratégia de moedas, passaram a ficar vendidos no dólar, virando a mão em relação a 2018. Na bolsa, são as ações voltadas para a dinâmica doméstica que têm sido privilegiadas. Freire também espera que outras histórias no campo micro sejam favorecidas por privatizações.

         Sergio Silva, da AZ Quest, espera boa performance para ativos brasileiros, se a Previdência for adiante. Isso permitiria a manutenção dos juros baixos, valorizaria o real e as ações mudariam de patamar.

         "O lado externo pode estragar um pouco, mas mesmo assim o Brasil vai bem porque o investidor estrangeiro está bastante tímido em Brasil, tanto em bolsa quanto em renda fixa", diz. "O capital externo pode efetivamente voltar e encontrar um cenário muito positivo, em que o país tem condições de crescer alguns anos sem pressão inflacionária." (do Valor Econômico)

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