Altos executivos estão trocando bancos pelo risco de fintechs

Entrando numa sala de conferências sem nada de especial em Manhattan, o ex-executivo-chefe do Citigroup Vikram Pandit serve como uma propaganda poderosa para a troca do mundo dos bancos pelo glamour e as promessas do universo da tecnologia financeira.

         Sua empresa, a Orogen, investiu mais de US$ 350 milhões em "fintechs" e, embora Pandit diga que está trabalhando mais "intensamente" do que esperava quando estabeleceu o empreendimento, há dois anos, ele curte ser parte de uma "mudança significativa na arquitetura do sistema financeiro" que está arrebatando o setor.

         As fintechs estão crescendo rapidamente e desafiando instituições financeiras estabelecidas ao aproveitar novas tecnologias -- como inteligência artificial e reconhecimento facial -- para oferecer novos serviços, como empréstimos on-line e aconselhamento automatizado para investimentos.

         Da mesma forma, Antony Jenkins, que foi forçado a sair do comando do Barclays em 2015, também demonstra satisfação com sua nova vida, embora sua fintech, a 10x Future Technologies, tenha perdido recentemente um grande contrato com a Virgin Money.

         O ex-chefe do Barclays disse que seu novo emprego é "essencialmente brilhante". Ele aprecia o trabalho mais prático com sua equipe de 200 pessoas e "nunca se preocupa com todos os recursos e status envolvidos" no comando de um banco com 120 mil funcionários e operações em todo o mundo.

         Jonathan Larsen, ex-chefe global do segmento de varejo do Citigroup, que agora dirige um fundo fintech do investidor Ping An na 10x, diz que o envolvimento de Jenkins traz uma "enorme credibilidade" para o empreendimento.

         À medida que os bancos enfrentam regulamentações mais duras, competição feroz de startups e cortes de custos sem fim, as fintechs tornaram-se uma perspectiva tentadora para aqueles que sentem que o "velho" setor tem demasiadas restrições, está perdendo terreno demais ou não é mais capaz de pagar seus salários.

         Mas, enquanto Pandit e Jenkins fazem um relato radiante de seu renascimento "fintech", entrevistas com mais de uma dúzia de outros ex-banqueiros mostram um cenário com mais nuances, onde a liberdade, a adrenalina e o crescimento rápido das fintechs se mesclam a expectativas irreais, competências mal combinadas, egos feridos e alertas cortantes.

         "É um choque cultural completo", diz Darragh McCarthy, ex-executivo sênior na divisão de renda fixa do Morgan Stanley, que estabeleceu a FinTrU em Belfast há cinco anos e agora tem uma equipe de 330 pessoas para oferecer soluções regulatórias para bancos de investimento.

         O suporte prático das grandes organizações está longe de ser a única coisa de que os banqueiros sentem falta. "Eu vi vários veteranos dos serviços financeiros se mudarem para o mundo das startups e esperarem que o mundo ainda os tratasse como diretores administrativos de um banco de primeira linha", diz Arun Krishnakumar, ex-especialista de risco do Barclays, que agora dirige uma fintech e o fundo de assistência à saúde Green Shores Capital. "Com frequência, eles não percebem que começam do zero e precisam restabelecer credibilidade."

         Larsen, que saiu de um grande banco americano para uma fintech em 2017, disse que a mudança revela rapidamente "o quanto do que você é equivale à estatura que você tem no seu emprego versus aquela substância do que você pode fazer e o que você pode criar".

         Essa perda de estatura "faz parte" de mudanças de carreira, segundo Pandit. "Se isso é o tipo de coisa que o incomoda, então você deveria fazer uma boa autoanálise", acrescenta ele. "Saber quem você é e o que você gosta de fazer, e o que você está disposto a fazer para chegar a fazer aquilo de que gosta é realmente essencial."

         Algumas vezes os banqueiros precisam aprender a humildade, pelo menos no início. Nick Hungerford, ex-gerente de patrimônio do Barclays e fundador da administradora britânica on-line de riquezas Nutmeg em 2011, diz que o maior alerta para ele no começo, foi perceber que deixara de ser um funcionário "de alto desempenho em um grande banco, para tornar-se, de repente, o cara que é de longe a pessoa mais dispensável na empresa".

         "Todas as pessoas que estavam desenvolvendo o produto e codificando a tecnologia; eu descobri muito rapidamente que eles eram os essenciais e meu trabalho era garantir que eles conseguissem realizar seu trabalho. Eu era aquele que estava comprando o lanche e limpando o banheiro e arrumando o escritório", diz ele.

         Também há a questão de se adaptar para trabalhar por algo menor. "Eu sinto falta da amplitude de atividades potenciais que você pode assumir", conta Santiago Suarez, ex-banqueiro do J.P. Morgan, que acabou de lançar a Addi, que faz empréstimos on-line na Colômbia.

         "Obviamente eu sinto falta do sentido de escala, uma das maneiras mais fáceis de começar a recrutar (é dizer às pessoas): 'vocês vão mexer com US$ 2 trilhões por dia em volume de compensações.' Isso é muito legal."

         Aritra Chakravarty, ex-executivo do HSBC que fundou duas fintechs no Reino Unido, diz: "Se você tem uma posição de influência em um banco, você ainda pode fazer uma boa diferença positiva para milhões de clientes. Startups demoram para decolar."

         Uma das principais razões para que tantos executivos de bancos mudem para as fintechs é que eles têm credibilidade, contatos e habilidades transferíveis que deveriam dar-lhes uma vantagem sobre empreendedores de fora do setor.

         "A FinTrU não tem nem ao menos um cliente que não seja alguém que, de alguma forma, trabalhou comigo ou para mim ou para quem eu trabalhei", diz McCarthy. "O lado marketing da FinTrU foi construído com base no poder da minha rede. Eles conhecem minha reputação e confiam em mim, em que quando eu digo que vou fazer algo, eu faço. E compreendem que eu conheço as pressões que eles enfrentam num banco de investimentos." Ele acrescenta: "Quando as pessoas falam sobre fintech, elas falam sobre a tecnologia, mas esquecem o financeiro".

         Suarez diz que quando se encontra com autoridades reguladoras colombianas, ele insiste "em mostrar essas credenciais do J.P. Morgan com bastante regularidade". "Em San Francisco, seria 'ó, meu Deus, você trabalhou para um grande banco, você é um dinossauro?' Aqui, elas [as credenciais financeiras] ajudam muito você."

         Jenkins afirma que sua marca pessoal é "muito importante", já que o problema que a 10x está tentando resolver -- o de liberar o poder dos serviços bancários digitais -- é um "problema do qual eu entendo profundamente". "As pessoas estão dispostas a ouvir porque, obviamente, eu estive lá", diz ele, acrescentando: "Mas isso [o perfil] só o leva até um certo ponto."

         Chakravarty afirma que uma combinação de experiência com bancos de investimento e execução digital o ajudaram a levantar US$ 5 milhões nas cinco semanas seguintes à sua saída do HSBC. Segundo ele, os banqueiros sem experiência de execução que ele viu no circuito de arrecadação de fundos estavam angariando menos.

         Ele conta ainda que sua experiência em garantir orçamentos para projetos internos também foi muito útil. "No espaço do venture capital, você só precisa de uma pessoa para dizer sim", afirma ele, acrescentando que dentro de um banco "você só precisa de uma pessoa para dizer não".

         Outros banqueiros veteranos que se mudaram para o mundo das fintechs incluem Anshu Jain, ex-chefe do Deutsche Bank, que é consultor do serviço americano de empréstimos on-line SoFi, e Blythe Masters, ex-executivo do J.P. Morgan que dirigia a Digital Asset, especialista em tecnologia blockchain, antes de se demitir no mês passado.

         Jenkins e Pandit não estão cegos para os desafios que as fintechs representam para alguns de seus colegas originários do sistema financeiro tradicional.

         Pandit diz que ter uma proposta comercial é crucial, acrescentando que "tecnologia não é um modelo de negócios". "Isto não é para qualquer um, absolutamente", afirma Jenkins. "Você tem que ver o mundo de uma maneira diferente, que lhe permita tanto identificar os problemas como identificar soluções em que outras pessoas não pensaram."

         "Quando você está fazendo este tipo de trabalho, é como um choque de adrenalina", ele acrescenta. "As coisas acontecem muito rápido, algumas coisas dão certo, outras não. Você não tem a segurança de uma grande organização atrás de você para absorver os altos e baixos, e, para algumas pessoas, isso seria uma transição desconfortável."

         Suarez afirma que adverte as pessoas de que "começar uma empresa deveria ser a última opção, e não a primeira". E completa: "Um caminho completamente subestimado é juntar-se a uma empresa que já tem um histórico comprovado e está crescendo como louca".

         Ele avisa que as pessoas não deveriam trocar os bancos pelas fintechs com a ideia de se aposentarem mais cedo. "Se esse é o seu negócio, você deveria ir para a área de private equity ou de fundos de hedge", diz. "O valor esperado dessas carreiras é muito mais alto. Com uma startup, as probabilidades são de que isso não vá funcionar." (do Valor Econômico)

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