Bancos reforçam defesa na 'guerra das maquininhas'

Pressionados pelo aumento da concorrência, os grandes bancos apresentaram novas armas na guerra das "maquininhas" de cartões. Banco do Brasil (BB) e Bradesco lançaram terminais com marca própria e vão oferecer também a venda dos equipamentos. Itaú Unibanco e Caixa Econômica Federal estudam fazer o mesmo.

         O alvo são principalmente pequenas empresas e microempreendedores -- segmentos em que os rivais mais crescem e, ao mesmo tempo, os bancos pretendem ampliar a oferta de crédito. O mercado de cartões movimentou R$ 1,36 trilhão em compras no ano passado, um crescimento de 12,6% em relação a 2016, de acordo com dados da Abecs, associação que representa o setor.

         Com PagSeguro, Stone e Safra no encalço, as grandes instituições financeiras concluíram que pode ser mais eficaz acessar essa clientela diretamente do que por meio de suas credenciadoras, que vêm perdendo espaço.

         BB e Bradesco controlam a Cielo e o Itaú é dono da Rede, as duas empresas que concentravam o mercado antes da abertura, determinada em 2010 pelo Banco Central. O Santander corre em uma raia à parte com a Getnet, que vem ganhando espaço, mas também precisou se adaptar à chegada dos novos concorrentes.

         "As atividades de credenciamento e bancos foram se aproximando cada vez mais, e passou a fazer sentido ter sua marca alinhada nesse processo", afirma Marcelo Labuto, vice-presidente de negócios de varejo do BB.

         Por meio de sua rede de agências, o banco passou a atuar com dois modelos de negócios. Um deles é a venda de maquininhas com a marca Stelo a pequenos empreendedores. O outro, voltado a empresas em geral, é a oferta de pacotes que incluem o aluguel de maquininhas com marca própria -- apelidadas de "BBzinhas" =-, serviços como antecipação de recebíveis e produtos bancários e de crédito. Neste caso, os terminais são da Cielo, responsável pela captura das transações com cartões.

         Por um valor parecido com o que gastaria alugando o terminal diretamente na credenciadora, no banco o cliente leva um pacote de serviços, afirma Rogério Panca, diretor de meios de pagamentos do BB.

         "Não há subsídio, mas repassamos a economia que temos ao negociar uma grande quantidade de equipamentos de uma só vez", diz. Outro atrativo é que o usuário já sai da agência com a maquininha habilitada.

         Por enquanto, a oferta está restrita a 12 agências do Banco do Brasil, mas será gradualmente ampliada nos canais da instituição. A expectativa do banco é fechar o ano com 125 mil maquininhas distribuídas.

         Além de defender o mercado de cartões, o modelo faz parte da estratégia dos bancos de expandir suas operações de crédito a pequenas e médias empresas -- que se tornaram prioridade no pós-crise. O crédito atrelado a recebíveis de cartões é cobiçado pelas instituições financeiras porque está amarrado em garantias e consome pouco capital.

         "Ter acesso ao fluxo de caixa dessas companhias é fundamental. Nos permite ter uma política de crédito com taxas melhores e oferecer produtos mais qualificados e baseados em um garantia sustentável", diz Labuto.

         Ao "embalar" os terminais da Cielo com a marca do banco, o Bradesco reforça o canal de vendas para os produtos da credenciadora. Ao mesmo tempo, amplia o relacionamento da instituição com os clientes, segundo Vinicius Favarão, diretor da Bradesco Cartões. "Quero ser o gestor de todo o fluxo de contas a receber e a pagar dos estabelecimentos", diz.

         Assim como no BB, a chamada "Bradesquinha" será destinada apenas para aluguel. Não haverá cobrança nos primeiros seis meses, em uma oferta que faz parte da política de preços da Cielo. "O banco atua como um canal de distribuição, a relação entre o estabelecimento comercial e o adquirente é preservada", afirma Favarão.

         Junto com o terminal, o cliente terá a opção de contratar uma conta do Bradesco com um pacote de serviços que traz benefícios como isenção para transferências e cinco dias sem juros no cheque especial.

         "A máquina faz parte da estratégia do banco de oferecer um leque maior de opções de pagamento e recebimento", diz. A expectativa é chegar a pelo menos 100 mil terminais até o fim deste ano, mas o número pode até superar essa meta, segundo o diretor. O Bradesco também venderá maquininhas com a marca Stelo para quem não quiser alugar um terminal.

         O modelo de venda foi introduzido pela "Moderninha", da PagSeguro, que se consolidou em um público praticamente inexplorado pelos concorrentes: microempreendedores como ambulantes, manicures e taxistas.

         O primeiro entre os grandes bancos a se mexer e oferecer um produto semelhante foi o Santander, com o lançamento da "Vermelhinha" para venda no ano passado. O banco é dono da Getnet, que há até pouco tempo era a única preocupação de Cielo e Rede no mercado de credenciamento de cartões.

         "Já nascemos com um modelo de conta integrada em que há um benefício visível para o cliente que tem um relacionamento com o banco", afirma Pedro Coutinho, presidente da Getnet. A empresa encerrou o ano passado com uma participação de 12,3% e espera chegar no fim do ano com 14% desse mercado.

         A base de terminais das credenciadoras tradicionais está em queda, enquanto o volume financeiro cresce bem menos que o de concorrentes. O total de compras registradas pela Rede cresceu apenas 1% no ano passado. O da PagSeguro, em outro extremo, aumentou 174%. "Estamos em um mercado difícil", reconheceu o presidente do Itaú, Candido Bracher, durante teleconferência de resultados.

         A credenciadora do maior banco privado brasileiro está desenvolvendo novos modelos de terminais, e a ideia é montar pacotes de serviços para oferecer aos clientes, afirmou Bracher, na ocasião.

          Procurado, o Itaú não quis dar entrevista sobre o assunto. A Caixa respondeu, via assessoria de imprensa, que avalia todas as possibilidades de mercado, mas ainda estuda a melhor estratégia para o segmento de aquisição de cartões.

         O movimento dos bancos na área de credenciamento chamou a atenção do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O órgão de defesa da concorrência questionou o Bradesco e a Cielo após o anúncio da atuação conjunta, com detalhes sobre a estratégia, "contextualizando as condições de comercialização, de quem será a propriedade do terminal (banco ou adquirente), dentre outros aspectos relevantes a respeito da iniciativa".

         O risco é que os bancos se valham do poder econômico para brecar a concorrência, mas as instituições argumentam que a estratégia de atuar com a marca própria nas maquininhas não afeta a competição. (do Valor Econômico)

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