Campos pode ampliar pauta pró-competição ao assumir BC

O economista Roberto Campos Neto, que deve ser confirmado presidente do Banco Central (BC) nesta semana, representa para o setor financeiro a promessa de avanço na pauta liberal e reformista da gestão de Ilan Goldfajn.

À espera da sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, marcada para amanhã, Campos tem evitado aparições públicas desde que foi indicado ao cargo, em novembro.   

Porém, esteve com os presidentes de bancos nesse período. Candido Bracher, do Itaú Unibanco, Octavio de Lazari Jr., do Bradesco, e Marcelo Marangon, do Citi, estão entre os executivos que se reuniram com ele.

Nesses encontros, o futuro presidente do BC ouviu sugestões e diagnósticos sobre o mercado e sinalizou que vai dar continuidade às medidas propostas por Ilan para fomentar a concorrência.

Entram na lista temas como open banking, pagamentos instantâneos e um ambiente favorável a fintechs. Os gargalos que contribuem para os spreads altos -- outro foco da "Agenda BC+", criada por Ilan -- também devem continuar a ser atacados, preveem executivos do setor ouvidos pelo Valor Econômico.

O legado deixado por Ilan -- juros nas mínimas históricas, inflação bem controlada e redução de travas burocráticas -- é um ponto de partida confortável para Campos. Com a atividade em recuperação e sem grandes preocupações na política monetária, a avaliação é que haverá mais espaço para avançar em questões relacionadas à eficiência do sistema.

Para o ex-presidente do BC Gustavo Loyola, a nova gestão deve continuar vigilante quanto à estabilidade da moeda e à supervisão do sistema, "enquanto avança na mediação da entrada de novas tecnologias e patrocina medidas para a redução do custo do crédito".

Aos 49 anos, o economista carioca é descrito por ex-colegas como um "tesoureiro idealista", inteligente e frequentemente disposto a debater ideias para o aperfeiçoamento do mercado. "Quero crer que dará continuidade aos projetos do Ilan e talvez até radicalize essa pauta", afirma um executivo que o conhece de longa data.

O apreço pelo liberalismo veio de casa. O futuro presidente do BC é neto do economista Roberto Campos, referência desse ideário no país. Foi por meio do avô que se deu a aproximação com o ministro da Economia, Paulo Guedes -- com quem passou a colaborar meses antes da eleição de Jair Bolsonaro.

Casado, pai de dois filhos e adepto de esportes, Campos Neto passou os últimos 14 anos no Santander, onde começou como "trader" e mais recentemente era diretor da tesouraria. Antes disso, trabalhou no Bozano, Simonsen e na gestora Claritas. Formou-se na Universidade da Califórnia.

Em sua trajetória no Santander destacou-se pela curiosidade, pelo gosto por temas de inovação e pelo perfil não tão convencional para um operador. Chegou a participar do comitê de recursos humanos do banco, lembra um ex-colega, o que o tornava um estranho no ninho.

 "O Roberto Campos é extremamente competente, um cara de mercado, um operador, foi trader de mesa, conhece as agências, o chão de fábrica, o banco", afirmou Lazari, presidente do Bradesco, em entrevista recente. "Tenho certeza de que ele vai continuar essa agenda [BC+] e ampliar para coisas importantes que a gente precisa fazer."

Entre as sugestões levadas pelo banco estão temas que começaram a ser discutidos na gestão de Ilan. Um deles é a redução, de 30 para dois dias, do prazo de pagamento aos lojistas nas operações com cartões de crédito. Outro é a possibilidade de os bancos cobrarem tarifa dos clientes que entrarem no cheque especial. Um terceiro item é a redução da circulação de dinheiro em espécie.

O presidente do Citi, Marcelo Marangon, disse ter sugerido à equipe econômica a criação de uma agenda com informações para investidores locais e estrangeiros. Ele também defendeu a manutenção da "Agenda BC+".

Embora tenha conversado com banqueiros, Campos Neto evitou se reunir com gestores de recursos e economistas-chefes das instituições financeiras. A postura não surpreende fontes de mercado ouvidas pelo Valor, já que uma aproximação precipitada poderia dar brecha a ruídos de comunicação com a diretoria atual, principalmente na política monetária.

Nesse campo, a expectativa também é que o trabalho feito pela equipe de Ilan seja mantido. "Na política monetária, não há necessidade de nenhuma grande inovação", afirma um gestor. Esse interlocutor lembra que a manutenção do diretor de política econômica do BC, Carlos Viana, contribui para uma transição suave.

Ao mesmo tempo, a permanência do diretor de regulação, Otavio Damaso, e a indicação de João Manoel Pinho de Mello para a diretoria de Organização do Sistema Financeiro, são apontadas como garantias de um olhar pró-competição.

Damaso é quem vinha conduzindo a "Agenda BC+", enquanto Pinho de Mello, ex-secretário de promoção da produtividade e de política monetária da Fazenda, é especialista em questões de competitividade e estruturas de mercado.

Já a escolha de Bruno Serra Fernandes para a diretoria de Política Monetária é vista por gestores como indício de pragmatismo na atuação no mercado. Ele foi responsável pela mesa de renda fixa do Itaú. Campos já se reuniu separadamente com todos os sete diretores da autarquia para conhecer cada área com mais detalhe.

Um ex dirigente do BC avalia que, para funcionar bem, a autoridade monetária deve combinar três perfis em sua diretoria: trader, acadêmico e institucional, algo que enxerga na nova composição. "Campos se encaixa no 'trader', apesar de sua formação acadêmica", diz. "Ilan já é mais acadêmico."

A cabeça de operador atribuída a Campos é vista no mercado como trunfo para momentos de nervosismo, e a expectativa é de que dê ao BC prontidão para intervir no câmbio quando necessário. "Gestores têm reação mais rápida a dados", disse Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú e ex-diretor do BC, em evento na semana passada.

Apesar do perfil diferente de Ilan, Campos terá o desafio de manter a credibilidade construída pelo antecessor. Com base em sua trajetória, as apostas são de que vai conseguir. Uma fonte do grupo de economistas cariocas, do qual o futuro presidente do BC faz parte, brinca: "Ele é atlético, competente e rico, algo de se invejar", diz. (do Valor Econômico)

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