Dia marcado por nervosismo movimenta mercado financeiro

O mercado financeiro viveu ontem uma amostra do que pode ser o período da campanha eleitoral. Um ajuste de posição no mercado de renda fixa por parte de um fundo estrangeiro detonou uma onda compradora de dólares.

            O movimento foi amplificado por diferentes rumores sobre pesquisas e de novas delações no âmbito da Operação Lava-Jato que circularam nas mesas de operação. Essa espiral fez os juros futuros e o dólar dispararem e derrubou o Ibovespa, na contramão do ambiente favorável a ativos de risco que se viu no exterior.

            Durante as primeiras horas do pregão de ontem, o tom do mercado era positivo, mas com giro de negócios bastante reduzido. Por volta das 14h30, entretanto, os preços mudaram de direção de forma abrupta, o que assustou os agentes e gerou uma corrida compradora de dólares e juros e vendedora de ações.

            Segundo profissionais, o que detonou essa virada foi uma grande ordem de compra de juros futuros -- quando o investidor assume uma posição a favor da alta da taxa -- por parte de um fundo estrangeiro.

            Essa operação foi concentrada nos contratos com vencimento em janeiro de 2020 e janeiro de 2021. Como resultado, o volume de negócios e as taxas desses contratos dispararam.

            O contrato de janeiro de 2020 movimentou R$ 39,4 bilhões, volume mais de cinco vezes superior ao observado na sessão anterior. A taxa desse contrato saiu de 7,88% e atingiu a máxima de 8,04% -- fechou a 8,01% na sessão regular.

            Já o DI de janeiro de 2021 teve giro de R$ 29,9 bilhões, quase quatro vezes acima da véspera, e o juro saiu de 8,85% para a máxima de 9,01%, antes de fechar a 8,98%. O dólar acompanhou esse movimento, inverteu o sinal e tocou a máxima do dia, aos R$ 3,7717. No fechamento, era cotado a R$ 3,7667, com alta de 0,91%.

            A correria que se instalou nesse momento alcançou também a bolsa. O Ibovespa inverteu a trajetória positiva que vinha exibindo e chegou a tocar os 79 mil pontos na mínima do dia. No fechamento, caía 0,87%, aos 80.347 pontos. O giro financeiro superou as médias negociadas nos últimos meses e ficou em R$ 9,72 bilhões, sendo que em apenas 48 minutos, o índice teve um incremento de giro de R$ 3,7 bilhões. Nas duas horas finais de pregão, o volume cresceu em mais de R$ 6 bilhões.

            O que poderia ser uma correção pontual de uma posição de um grande investidor acabou ganhando força por duas razões: a menor liquidez, num momento em que o mercado opera em compasso de espera por um quadro mais definido sobre as eleições; e a incerteza sobre o que está por vir nesse processo eleitoral, ingrediente que deixa o mercado muito mais suscetível.

            Ao observar esse movimento de ajuste de posição e de preços, alguns rumores passaram a circular nas mesas de operação, amplificando a piora dos ativos. Entre os rumores, o mercado comentou a possibilidade de a pesquisa eleitoral da CNT/MDA, prevista para hoje, mostrar o candidato tucano, Geraldo Alckmin, enfraquecido no Estado de São Paulo.

            Também circularam boatos sobre uma possível delação envolvendo Alckmin na Lava-Jato. Essa informação foi desmentida em nota assinada por Eduardo Carnelós, advogado de Laurence Casagrande Lourenço, ex-executivo da Dersa e ex-secretário de Transportes no governo Alckmin.

            "Houve uma realização tanto de estrangeiro quanto de investidores locais em função do novo cenário possível", afirma o gestor de um fundo paulista, lembrando que o mercado vem de uma trajetória positiva desde meados de julho, promovida em grande medida pela leitura de que Alckmin passaria a ter chances reais de ir para o segundo turno depois de conquistar o apoio dos partidos do Centrão.

            Essa sensibilidade tende a crescer, afirmam especialistas, quando o programa eleitoral começar. "A dinâmica do pleito eleitoral está contaminando os ativos brasileiros e isso vai ficar pior. O Ibovespa não vai buscar os 87 mil pontos sem cenário benigno com as eleições", afirma Fernando Barroso, diretor da CM Capital Markets.

            Para Barroso, o fluxo forte do Ibovespa, acompanhado de um movimento de baixa, deixa evidente que as apostas contra a bolsa são maiores agora. Ainda assim, chama atenção o fato de o giro seguir modesto, com os agentes mantendo o pé no freio na renda variável. "Sem fatos, apenas com rumores, os investidores realizam lucros nas ações do 'kit Brasil', que são mais líquidas, como bancos, e estatais."

            Além do setor bancário, caíram ontem Petrobras ON (-0,39%) e PN (-1,57%). O fato de a ON ter oscilado menos do que a PN é uma pista de que, embora o estrangeiro tenha embarcado na realização de lucros, fundos locais têm atuado com mais intensidade na ponta vendedora. (do Valor Econômico)

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