Fintechs têm acesso limitado a capital, mostra pesquisa

Apontadas como promessa de uma inédita concorrência para os bancos, as fintechs brasileiras ainda são pequenas e têm dificuldade para atrair capital. É o que mostra levantamento feito pela consultoria PwC em parceria com a ABFintechs, associação das empresas do setor.

            Segundo a pesquisa, obtida com exclusividade pelo Valor Econômico, 57% das fintechs já receberam investimentos. Porém, são aportes relativamente pequenos e concentrados nas empresas que estão em fase de expansão ou consolidação das operações. Há poucos recursos para quem está nas etapas iniciais do negócio.

            "O investidor passa sozinho pela arrebentação", afirma Rodrigo Soeiro, presidente da ABFintechs. De acordo com ele, falta visibilidade para atrair recursos de investidores externos. "O Brasil é um 'hub' de fintechs na América Latina, mas isso não tem se traduzido em acesso a capital."

            No primeiro trimestre deste ano, fundos de venture capital investiram US$ 2,2 bilhões em fintechs na América do Norte, US$ 2 bilhões na Ásia e apenas US$ 271 milhões na América do Sul, de acordo a PwC. Desse montante, porém, US$ 150 milhões se referem a um aporte na emissora de cartões Nubank -- companhia que já está em fase de consolidação de suas atividades.

            Questões macroeconômicas são um dos motivos para manter investidores distantes, mas a falta de conhecimento sobre as empresas de tecnologia financeira do país também é um obstáculo, na visão de Soeiro. De acordo com ele, um dos objetivos do estudo é traçar um panorama mais claro das cerca de 400 fintechs existentes no mercado brasileiro.

            Das empresas que atraíram investidores até agora, 40% receberam aportes inferiores a R$ 1 milhão. Para outras 29%, o montante ficou entre R$ 1 milhão e R$ 5 milhões. A pesquisa foi feita entre fevereiro e junho e conta com respostas de 224 empresas.

            A questão do acesso a recursos é crucial para que as fintechs deem um passo adiante. As companhias disseram dominar tecnologias móveis, sistemas em nuvem e análise de dados, mas blockchain (tecnologia de registro de transações) e inteligência artificial foram apontados como as ferramentas que pretendem ter no futuro. "O que as trouxe até aqui não é o que vai fazê-las crescer", afirma Luis Ruivo, sócio da PwC.

            De acordo com ele, as fintechs mais bem-sucedidas têm foco estrito, atuam em nichos ou serviços subatendidos pelos competidores tradicionais e com tecnologias inovadoras. Crédito e meios de pagamento são as áreas de atuação de 46% delas.

            No entanto, apenas 17% prestam serviços ao consumidor final -- o que, para Soeiro, é reflexo da dificuldade de acesso a capital. "O custo de aquisição desses clientes é alto", observa o presidente da ABFintechs.

            Na visão de Soeiro, o segmento precisa se tornar mais visível para atrair investidores estrangeiros que entrem no risco de implementação dos projetos. Ele também defende que o setor público tenha um órgão que fomente empresas em estágios muito iniciais. O próprio BNDES ou a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) poderiam cumprir esse papel, afirma, mas com um foco maior nas fase de concepção e implantação.

            O presidente da ABFintechs diz que o tempo que uma empresa do setor leva para atrair investimento no Brasil é de 11 a 16 meses, contra três a seis meses nos Estados Unidos. "Muitas morrem antes disso", ressalta. "O setor precisa atrair capital de fora para encurtar esse prazo."

            A pesquisa aponta que 46% das fintechs do país nasceram após 2016. Além de jovens, são muito pequenas: 35% delas faturam até R$ 350 mil por ano e 28% têm, no máximo, dez funcionários. Uma parcela de 58% ainda não atingiu o equilíbrio entre receitas e despesas, mas metade espera alcançá-lo ainda neste ano.

            "As fintechs no Brasil estão aquém de seu potencial. São empresas muito pequenas. Continua sendo um desafio gerar impacto no mercado", diz Ruivo, da PwC.

            As perspectivas de crescimento, no entanto, são promissoras. Metade das empresas afirmou ter aumentado suas receitas acima de 30% no ano passado e 67% disseram esperar esse ritmo de expansão em 2018. (do Valor Econômico)

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