Fundos que usam inteligência artificial ganham mais espaço

Fundos de investimentos que usam apenas inteligência artificial viraram uma alternativa para balancear a rentabilidade das carteiras do investidor diante do cenário de volatilidade dos últimos meses.

         Enquanto a Bolsa acumula alta de 8% no ano e o CDI, que baliza as aplicações da renda fixa, avança 6%, esses fundos, chamados de quantitativos, prometem retornos maiores -– de mais de 10% –-, especialmente em momentos de crise e incerteza, como em época de eleição.

         O uso de inteligência artificial nas aplicações ganhou fama com os robôs de investimento, que montam uma carteira com base em algoritmos. Esses fundos elaboram regras matemáticas e aplicam com base nos dados de diversos ativos, como dólar, ações e juros, por isso são da classe dos fundos multimercado. 

         Diferentemente das carteiras de robôs, os quantitativos vão mais a fundo no movimento de sobe e desce dos ativos e conseguem traçar regras matemáticas mais sofisticadas, com ativos que reagem de maneira diferente a um determinado evento. O movimento de papéis de empresas varejistas, por exemplo, dificilmente vai influenciar o de empresas de saúde. 

         Os fundos quantitativos geralmente têm aporte inicial maior, na casa dos R$ 10 mil, e podem ser encontrados em distribuidoras populares, como XP, Órama e Easynvest. 

         O princípio básico de um fundo desses é que pequenas distorções detectadas em dados históricos irão se repetir no futuro e, para realizar o ganho nessas pequenas vantagens, os fundos usam a estatística e a matemática, explica Moacir Fernandes, sócio e gestor da Murano, que tem sob gestão R$ 230 milhões e 12% de retorno em 12 meses.

         “É como se tivéssemos uma moeda que, em vez de ter chances iguais de cair cara ou coroa, tivesse uma probabilidade maior de cair em uma das faces. Uma aposta única nisso seria um grande risco, mas várias pequenas apostas são mais viáveis, é como se fossem várias apostas em várias moedinhas”, diz. 

Perfil. A aposta na volatilidade fez Dennis Kac, sócio da butique de investimentos Brainvest, incluir essa estratégia em algumas de suas carteiras neste período de crise. “Ele protege o portfólio no momento em que os fundos em geral têm performance ruim”, explica. Kac pondera que esse tipo de fundo é para quem tem um perfil mais agressivo de investimento e faz mais sentido para investimentos de mais longo prazo. 

         A inteligência artificial também permite traçar perfis de estratégias diferentes, explica Flávio Terni, sócio da Visia, que só gere fundos quantitativos e tem R$ 780 milhões sob gestão. Um dos fundos da empresa utiliza algoritmos com o principal foco em retorno, enquanto outro tem como foco ter ativos mais diversificados, o que protege mais a carteira. Os fundos da Visia chegaram a 13% de retorno nos últimos 12 meses.

         Esses fundos levam em conta apenas os números, sem os vieses comportamentais dos gestores. Para Willian Eid, coordenador do centro de finanças da FGV, no entanto, um fundo desse tipo não substitui a análise de um bom gestor de fundos. “Quero um gestor que dance em qualquer música, não só em crise. Acredito em tecnologia, mas não para tomar decisão”, diz. 

Mundo nerd. O BTG Pactual implementou em dezembro o projeto Stratsphera, um portal voltado para operadores que usam algoritmos (chamados “algo traders”), onde participam de competições. O banco aproveita para captar talentos fora do Sudeste.

          O portal tem um simulador de fórmulas matemáticas obtidas a partir de uma biblioteca de dados com ativos de diferentes mercados –- e, a partir dele, os traders podem traçar suas estratégias e ganhar prêmios. Atualmente, está em andamento a segunda competição de algoritmos. O primeiro lugar vai ganhar R$ 25 mil.

         “Esse produto ainda é pouco desenvolvido no Brasil, os investidores não conhecem direito, e queremos disseminar essa cultura e fomentar o algo trade”, conta Jerckns Cruz, chefe da mesa de Algorithmics do Banco BTG.

         O banco ainda não oferece esse tipo de fundo para investidores, mas usa a estratégia nas carteiras dos acionistas. Gustavo Roxo, diretor do BTG, diz que a plataforma também ajuda a formar uma rede de profissionais mais diversa, com matemáticos, estatísticos e engenheiros. (de O Estado de S. Paulo)

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