Greve compromete o segundo trimestre do setor industrial

A greve dos caminhoneiros pode ter provocado uma queda brutal na produção da indústria brasileira em maio. Analistas acreditam que os efeitos podem se estender a junho, o que seria um fechamento melancólico para o segundo trimestre -- com implicações sobre toda a economia --, que começou com números positivos em abril.

         Após a divulgação dos dados de fabricação de veículos, primeiro indicador da atividade econômica relativos a maio, estimativas preliminares de bancos e consultorias apontam diminuição de até 13% na produção total da indústria, que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgará apenas no início de julho. A paralisação, que durou 11 dias, também afetou o varejo e as expectativas dos consumidores, segundo pesquisas da Serasa e da FecomercioSP.

         Segundo a Anfavea, que reúne as montadoras, a produção total de veículos (leves, motocicletas, caminhões, etc) caiu 20,2% em maio, na comparação com abril e recuou 15,3% sobre o mesmo período do ano passado. A estimativa da entidade é de que a greve ainda tenha efeito sobre os números de junho, uma vez que a operação de algumas unidades ainda não foi totalmente retomada.

         Por causa do longo encadeamento da indústria de veículos, que envolve autopeças, produtos de borracha, eletrônicos, o que acontece com esse segmento se dissemina por vários outros.

         Os números foram piores que o esperado e apontam que a produção industrial de maio pode cair 13,2% na comparação com abril, segundo estimativa da LCA Consultores. "Os efeitos adversos da paralisação superaram nossa expectativa", afirma o economista Rodrigo Nishida.

         Na comparação com maio do ano passado, a queda estimada é de 9%. Nishida ressalta que a projeção "é bem preliminar" e pondera que a maior parte do prejuízo no setor automotivo pode ser compensada nos próximos meses.

         No ajuste sazonal feito pela GO Associados, a produção total de veículos caiu 26% em maio, ante abril. Segundo o economista Luiz Castelli, o dado aponta um recuo de 4% na produção industrial de maio ante abril. Ele também pondera que o número é muito preliminar porque vários indicadores coincidentes da indústria ainda não são conhecidos.

         O Itaú Unibanco revisou a estimativa para a queda da produção industrial de 5% para 6,4%, após os números da Anfavea, o que representaria uma baixa de 3,4% na comparação anual.

         Já a MCM Consultores calcula que a produção industrial deve ter registrado uma queda de 8,8% em maio, em relação a abril, e feito o ajuste sazonal, equivalente a uma retração de 4,6% na comparação com maio de 2017.

         A produção de veículos caiu 25,6% em maio, na base mensal ajustada, após avanço de 7,5% no mês anterior. A média móvel trimestral recuou 5,2%, ante alta de 2,1% há um mês, calcula a MCM. A consultoria ainda observa que o recuo pode ser parcialmente revertido em junho, mas que a Copa do Mundo também pode contribuir para a redução das horas trabalhadas nas fábricas.

         Para Fernando Montero, economista-chefe da Tullett Prebon, a economia que sairá do episódio da greve dos caminhoneiros deverá estocar mais insumos. "Por mais pessimista que estejam, [os empresários] vão querer trabalhar com estoques preventivos; o 'just in time' [sistema de produção sem estoques] atrapalhou", diz ele. "Normalizada a conjuntura, pode dar algum sustento adicional."

         Nas suas contas, a produção de veículos em maio caiu 30% em relação a abril, feito o ajuste sazonal dos números da Anfavea. Esse resultado "dobrou" a queda de 15% que havia sido registrada pelos emplacamentos, nota ele. "É como se a paralisação dos caminhoneiros tivesse efetivamente subtraído um terço do mês às montadoras."

         Montero ressalta ainda a queda das exportações, "juntando-se à piora do mercado argentino", destino de parcela considerável das vendas externas de veículos brasileiros. Em números, diz, as séries ajustadas sazonalmente mostraram que, em maio, houve 80 mil unidades produzidas a menos, redução de 35 mil emplacamentos, 14 mil unidades a menos exportadas e diminuição de 26 mil nas unidades estocadas.

         Indicadores do comércio também mostram efeitos da greve. Segundo a Serasa Experian, o movimento nas lojas do país caiu 2,2% em maio ante abril, com ajuste sazonal. A abertura dos dados, destaca o Itaú, aponta o impacto da paralisação dos caminhoneiros na última semana do mês. Os setores mais afetados foram veículos e peças (-10,3% com ajuste) e combustíveis e lubrificantes (-6,5%). "Combinada a outros indicadores, nossa previsão preliminar é de queda de 1,6% no varejo restrito e de 3,4% no varejo ampliado em maio, ante abril", diz o banco.

         A FecomercioSP mediu o humor do paulistano durante a greve e calculou o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) em dois períodos distintos. De acordo com as entrevistas feitas com 1,1 mil pessoas na capital paulista em 11 de maio (antes da paralisação), o ICC atingiu 113,2 pontos; e, em 25 de maio, (quinto dia de paralisação), em uma nova coleta com mais 1,1 mil consumidores, o ICC marcou 95,5 pontos -- uma queda, de 15,6% nesse intervalo de 15 dias.

         As expectativas também pioraram. Os consumidores mostraram, segundo a FecomercioSP, uma evidente desconfiança na capacidade do governo de solucionar a crise, e também de como serão os próximos meses até o fim do mandato. (do Valor Econômico)

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