Kapitalo chega aos R$ 14 bi na sua primeira década

Prestes a completar uma década, a Kapitalo Investimentos acaba de ver seu patrimônio líquido superar os R$ 14 bilhões. Ao se olhar a fotografia de três anos atrás, quando tinha menos de R$ 1 bilhão, parece um salto e tanto, mas o lema nessa gestora de recursos "cheia de regras", como definem seus sócios, é crescer devagar.

       Grande parte do incremento veio da rentabilidade, já que os multimercados da casa passam a maior parte do tempo sem aceitar dinheiro novo. Na última janela de captação, aberta no início do ano e encerrada na sexta-feira passada, ingressaram R$ 3,5 bilhões. Mas havia procura para mais.

       "Deixamos na mesa pelo menos R$ 11 bilhões. Parei de contar quando a demanda chegou a R$ 15 bilhões", conta João Carlos Pinho, que fundou a Kapitalo no fim de 2009 ao lado de Carlos Woelz e de Emerson Ricardo Codogno (que deixou a casa três anos depois).

       O interesse do investidor não é sem razão, já que os multimercados Kappa (12,1%) e Zeta (17,9%) foram dois dos fundos da categoria macro de melhor desempenho no ano passado, com ganhos de 189% e 278% do CDI, respectivamente -- e num período cheio de tropeços, mesmo para os gestores mais experientes. Em 12 meses, a gestora saiu da 40ª posição no ranking de gestão para a 29ª, segundo a Morningstar.

       "Não acho um horizonte relevante [avaliar] um ano. Aqui, internamente, a gente olha pelo menos três", avisa Woelz no início de uma rara conversa com a imprensa que se estenderia por quase duas horas.

        "É razoável dizer que a Kapitalo tem tido sucesso, mas mais em função de três, cinco anos, do que 2018. É essa a construção."

       Em 60 meses até o fim de 2018, o Kappa exibia retorno equivalente a 137,3% do CDI, enquanto o Zeta, mais alavancado, estava em 206,6% do referencial. Em termos absolutos (92,5% e 139,2%) isso significa que R$ 10 mil aplicados nesse intervalo se transformaram em R$ 19,3 mil e R$ 23,9 mil, respectivamente. O desempenho de janeiro engordou mais as cotas.

       Mesmo após o fenômeno das plataformas independentes alçar alguns gestores de recursos ao status de celebridade financeira ao captarem somas bilionárias, a escolha da Kapitalo tem sido receber esse capital em pequenas doses. Pinho afirma que só 15% do patrimônio vem por essa via, uma forma de controlar o passivo.

       "Por que é pequeno? Porque a gente não entende como é o comportamento dessa pessoa física. Pode ser melhor que o do private banking, mas pode ser muito pior. À medida que a gente conheça, talvez possa concentrar um pouco mais lá na frente, mas tem que testar." O grosso do dinheiro vem de estruturas de private banking e de escritórios de gestão de fortunas.

       Modular o tamanho dos fundos é uma maneira de assegurar que a gestora não vai mudar o seu estilo porque ficou grande demais, diz Woelz.

       "De modo geral, há sempre um nível a partir do qual você começa a perder qualidade. A rentabilidade vai ser uma prova de que a gente não está descaracterizando o processo de investimento, é o grande check. Se não fechar [o fundo] você não consegue acompanhar."

       Construir progressivamente equipes também faz parte dessa disciplina. Em 2015, a Kapitalo tinha 25 profissionais. Hoje, são 58, sendo 40 gestores e analistas.

       São 21 sócios que, pelas regras de governança da casa, colocam o próprio dinheiro num veículo que aplica nos mesmos fundos que os investidores. Além disso, o nome do jogo é "ter paciência", diz Woelz, para que diferentes áreas construídas como um lego consolidem, ao longo do tempo, seus processos de investimentos.

       Cada uma das 14 divisões -- macro, renda variável internacional ou estratégias sistemáticas e de volatilidade, entre outras -- atua como se fosse uma pequena gestora de recursos independente. No conjunto, todas se comunicam com os multimercados. Há um comitê de investimentos, mas não existe a figura de um executivo-chefe.

       O modelo prevê que cada pequena asset ganhe capacidade de gestão -- o que significa mais volume -- à medida que dê resultados. "A gente não contrata para gerir mais dinheiro. As áreas que entram, entram para fazer os próximos dez anos, não fazem diferença no resultado da empresa [no curto prazo]", diz Woelz. "O risco vai sendo alocado lentamente."

       Isto quer dizer que não é porque há percepção de que um determinado mercado vai ter desempenho melhor do que outro, que aquela estratégia vai ter necessariamente um orçamento de risco maior. Além disso, cada mesa tem uma exposição máxima por ativo e limites pré-definidos de perdas.

       Exemplo dessa base erguida tijolo a tijolo é que o filhote de ações, o Tarkus, veio só no fim de 2017, oito anos depois de Hegler Horta se juntar ao time para desenvolver a estratégia de renda variável local para os multimercados. Ele se tornou sócio no espaço deixado por Codogno. Na sua estreia, o Tarkus fechou 2018 com valorização de 46,8%, ante 15% do Ibovespa.

       O fundo novo nasceu usando as ideias de bolsa já empregadas no Kappa e no Zeta, com alguma adaptação, já que tem como referencial o Ibovespa.      Conforme descreve Horta, a estratégia de ações direcional pode ficar comprada entre 70% e 130% ou ficar vendida (apostando na baixa) em até 30%. "Já era hora [de ter um FIA], a equipe é madura", diz Horta, referindo-se a Bruno Mauad (ex-Pátria e Ashmore) e Marcelo Bernabé (ex-Unibanco e Brasil Warrant), sócios que chegaram em 2014 e 2015. Com um patrimônio de cerca de R$ 430 milhões, a carteira deve fechar quando atingir R$ 500 milhões.

       A maior parte do desempenho dos multimercados no ano passado veio das ações, seguida por estratégias com juros. Para 2019, os gestores veem fundamentos para outro bom ano de bolsa, mas preferem, por ora, posições menores porque há riscos vindos da cena local, com o Brasil sob nova direção, e da externa.

       "O Brasil vive um momento interessante para a renda variável porque saiu de uma recessão, o desemprego ainda é alto e a inflação está baixa, o que dá condições de o país crescer acima do potencial sem gerar inflação por alguns anos", diz Horta.

       Tal combinação, prossegue, tende a ser muito positiva para a lucratividade das empresas porque, à medida que se ocupa a capacidade ociosa, os lucros crescem sem a necessidade de novos investimentos.

       "De modo geral, a situação financeira das empresas é muito positiva, elas estão se desalavancando, isso é muito relevante numa crise, após o que aconteceu com a economia", diz Woelz.        Além disso, o gestor diz que desde o ano passado vem consolidando a opinião de que o juro real brasileiro mudou estruturalmente de lugar e ficou mais baixo. Isso quer dizer que há potencialmente uma aceleração na alavancagem operacional das companhias, que passam a lidar com despesas financeiras menores. O resultado é que sobra mais dinheiro na mão dos acionistas.

       Do lado macro, Woelz cita que a economia brasileira finalmente voltou a gerar emprego acima do necessário para reduzir a taxa de desemprego, fazendo a ressalva de que essa leitura é de apenas um dado.

       "Isso gera consumo sustentável à frente. Então o ponto do Brasil não poderia ser melhor, o valuation é muito adequado, as alavancagens são muito confortáveis."

       Mesmo com ingredientes favoráveis, os gestores mantêm um pé atrás. O diagnóstico de que o Brasil precisa materializar a reforma da Previdência para estabilizar a trajetória da dívida pública parece na direção certa, mas Woelz diz ainda não ter clareza de qual vai ser o plano do novo presidente, Jair Bolsonaro.

       "Tem a chance de ter um governo muito diferente e muito positivo e, ao mesmo tempo de ser péssimo. A gente tem muito menos confiança do que vai acontecer, mas é para os dois lados. Não é só para o lado ruim, não."

       Outro tema que diminui a visibilidade é o que ele chama de "fim de ciclo global", momento em que a produtividade poderia estar muito abaixo do aumento salarial e haveria riscos inflacionários de médio prazo.

        É um período em que se fica preso ao dilema de aumento de juros ou ao risco de recessão. A reunião do Federal Reserve na semana passada tirou um pouco dessa tensão ao sinalizar uma pausa no ciclo de aperto monetário, o que, a seu ver, já deveria ter sido feito na reunião de dezembro.

       Na avaliação de Woelz, isso só não ocorreu porque o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pressionou o presidente do Fed, Jerome Powel, por um alívio e coube ao BC americano reafirmar sua condição de independência.

       "Os bancos centrais tendem a tentar fazer um pouso suave, sempre e equilibrado, só que isso, na prática, é muito difícil", afirma Woelz. Para o gestor, o mais provável é haver mais à frente uma redução da atividade, mas não necessariamente uma recessão global.

       Do lado micro, ele vê as empresas em boa forma. "Tipicamente, você tem o fim do ciclo fazendo com que o salário suba muito acima da produtividade, consuma a geração de caixa das empresas, fazendo com que fiquem frágeis quando tem uma desaceleração global. A gente está vendo a desaceleração, mas não empresas frágeis. Não houve queda de margem significativa, de maneira consolidada." Sem pressão nessa via, ele acha que o Fed tem espaço até para cortar os juros.

       A guerra comercial entre EUA e China, que potencializou a onda de vendas de ativos no fim de 2018, é outro ponto de atenção e que bate nas projeções de crescimento, que ainda se mostram positivas. "É um momento bom e piorando. Isso acaba moderando as nossas posições otimistas de modo geral."

       Em comum, Woelz, Pinho e Horta têm na bagagem de anos de convivência no antigo Banco BBM -- que deu origem à Bahia Asset. Além deles, outros seis nomes que saíram de lá compõem a equipe -- Marcelo Pernanchini, Nuno Sampaio, Marcos Stein, Vinícius Ajuz Garcia, Bruno Cordeiro e Daniel Correa. O BBM também foi a escola que fez Rogério Xavier, Beny Parnes e companhia, grupo que fundou a bem sucedida SPX Capital em 2010. (do Valor Econômico)
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