Militares vão surpreender positivamente, diz Silva e Luna

O ministro da Defesa, Joaquim Silva e Luna, afirma que os brasileiros vão se surpreender positivamente com o desempenho dos militares no governo do presidente eleito Jair Bolsonaro.

       "Um general caminha na lama e no tapete vermelho com a mesma naturalidade, e sem nenhum deslumbramento, isto facilita", aposta o ministro, que é general de exército da reserva, tendo alcançado o topo da carreira.

       De perfil discreto, ele é o primeiro militar a chefiar a pasta da Defesa desde a sua criação, em 1999. Terá completado um mandato de dez meses quando deixar o ministério em dezembro.

       Neste período, ajudou a desatar um dos maiores nós da infraestrutura: selou um acordo com os índios Waimiri-Atroari para o pontapé inicial das obras da linha de transmissão de energia Manaus-Boa Vista, que finalmente conectará o Estado de Roraima ao sistema interligado nacional.

       A obra, que deveria ter sido concluída em 2015, agora tem dia para começar: 19 de abril do ano que vem. A data é simbólica: é Dia do Índio e Dia do Exército.

       Tendo demonstrado surpreendente habilidade política, seja no trato com os índios, seja com os caminhoneiros -- quando em junho destacou tropas do Exército para escoltarem aqueles que desejavam voltar ao trabalho --, o ministro pondera que a expressiva participação de militares no primeiro escalão do futuro governo "não significa absolutamente nada", porque não estão na ativa. "Um militar da reserva é um cidadão como outro qualquer, que vota, paga imposto e tem direitos civis garantidos".

       Até o momento, são seis os ministros de formação militar anunciados por Bolsonaro: os generais da reserva Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo) e Fernando Azevedo e Silva (Defesa), além de Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia, tenente-coronel da Aeronáutica até 2006), Bento Leite de Albuquerque Junior (Minas e Energia, almirante), e o consultor legislativo Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura), que serviu no Exército por 16 anos e deixou a Força em 2008, com a patente de capitão.

       Silva e Luna salienta que um quadro militar alçado ao posto de general acumula tanta vivência em situações diversas que a experiência de vida o qualifica para o exercício de qualquer função -- inclusive política.

       "Enquanto um deputado ou um senador pode vir de qualquer área e ser eleito, ninguém vira general no dia seguinte, tem que ter no mínimo 40 anos de serviço", argumenta. "Ganhar experiência lendo livro, estudando, é a mesma coisa que você querer matar a fome lendo um cardápio, não consegue, precisa de um pouco de chão de fábrica", completa.

       Antes de se tornar ministro, Silva e Luna exerceu funções relevantes de gestão como secretário-geral do Ministério da Defesa e chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas. Começou a carreira como cadete em 1969, passou por todos os postos, chefiou batalhão de engenharia na Amazônia, foi instrutor de tropas no Paraguai e adido militar em Israel.

       Na reta final do mandato, ele admite que em várias situações foi preciso manter o autocontrole. "Esse cuidado [no exercício da função] pra mim foi uma servidão, perdi a liberdade de sair dizendo o que pensava, não podia agir com dureza em alguns assuntos", confidencia. "Saber dizer não sem criar aresta é complicado".

       Leva no currículo o relevante acordo costurado com os Waimiri-Atroari, em junho, para o início das obras do linhão Manaus-Boa Vista, em que revelou diplomacia e traquejo político. O projeto já vive quase uma década de impasse em torno do licenciamento.

       Sem acesso ao sistema nacional, Roraima é abastecida por termelétricas e pela energia da hidrelétrica de Guri, na Venezuela. Mas o país vizinho ameaçou suspender o fornecimento do Estado por falta de pagamento da dívida do Brasil com a estatal venezuelana de energia.

       A Justiça Federal suspendeu a licença ambiental em 2013, mas a decisão foi revogada pela instância superior em 2015. Contudo, os índios continuaram dificultando o trabalho dos técnicos. Em março deste ano, lideranças indígenas haviam autorizado a entrada de técnicos na aldeia para elaboração do relatório de impacto ambiental, mas o acordo não estava sendo cumprindo pelos índios.

       Nesse cenário, o ministro de Minas e Energia, Moreira Franco, pediu a Silva e Luna que reforçasse a mediação com os índios: ele havia estabelecido uma relação de confiança com os índios quando serviu como coronel naquela região, na década de 1990.

       "Com os índios é igual casamento, não é só conquistar e casar, tem que manter o relacionamento", ensina. Quando comandava o batalhão de engenharia na Amazônia, o então coronel Silva e Luna visitava os índios semanalmente.

       Em junho, quando retornou à aldeia para negociar a continuidade dos trabalhos do relatório de impacto ambiental e marcar data para o começo da obra, não foi o ministro que os índios receberam com festa, e sim o "coronel Silva e Luna".

       Foi recebido com "guarda de honra", teve festa, dança, canto e um farto almoço. Hoje os Waimiri são 3.014 índios -- haviam sido reduzidos a pouco mais de 500 nos anos 1970, quando muitos morreram em meio à construção da BR-174, no governo militar.

       Mas houve momentos de tensão durante a reunião: o ministro ouviu que não despertava mais confiança, porque "agora era governo". Os índios exigiram respeito: "Eu sou kinja [pronuncia-se kinrá na língua waimiri], sou gente, me trate como gente", teve que ouvir.

       Até o momento, há anuência de que os antropólogos e ambientalistas concluam os trabalhos. A previsão é construir 243 torres na faixa de domínio da rodovia. Em contrapartida, os índios recebem uma indenização pelas obras na reserva e pela área de desmatamento.

       Entre auxiliares de Michel Temer, a avaliação é de que ele não errou ao efetivar Silva e Luna no cargo -- ele assumiu em fevereiro como interino - porque o general se revelou habilidoso e discreto. "Imagine se ele saísse dando declarações estapafúrdias ou tomando atitudes inesperadas, não daria para colocar outro militar no cargo", reflete uma fonte do governo. (do Valor Econômico)
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